Sabe, o cometa é inexplicável. Ele surge para desaparecer. Começa fraco, cresce rapidamente para depois decrescer. Li em algum lugar que ele é praticamente uma bola de gelo sujo e é o menor corpo do sistema solar. Tudo nele parece ser imprevisível. Sua irregularidade orbital, às vezes, o traz para muito perto do sol. Quando isso acontece, o gelo começa a vaporizar, liberando gases e partículas de poeira em uma nuvem na atmosfera. Assim, da terra, ele se torna visível. No entanto, muitos cometas são fracos demais para serem vistos a olho nu. Eles se quebram em pedaços. Alguns chegam a um final espetacular, caindo no sol ou colidindo com algum planeta. Parece que algumas das muitas crateras da lua podem ter sido causadas pelos cometas. Pra mim, os cometas são pequenos instantes. Mas o que isso significa?
março 05, 2022
A vida é isso: o vento. Brisa no rosto, corrente de ar, ventania, sopro, respiração. O amor é o voar. Eu nunca amei você. A mim, eu me deixo. De peito aberto, eu me deixo. Eu vento. Sem rumo, pra longe, por aí. A desaparecer. Finalmente. Livre. Sou espalhamento de mim no centro do vendaval. Estou a girar. Sou à roda. Rodopio. Meu corpo dança. Distraidamente. Despreocupadamente. Deixando ir. É hora de deixar. É hora de deixar. Qual foi a última vez que sentimos juntos o vento no rosto?
Não tínhamos medo de nada, lembra? Aliás, gostávamos da adrenalina que aquilo tudo dava na gente. Depois, desenhávamos entusiasmados aquelas sensações. Hoje, o seu caderno não tem palavras nem imagens, por quê? A cada nova seção, mais números e designações, sempre a conferir o destino calculado de antemão. Por vezes, vi o seu reflexo no meu espelho, via você em mim, eu visitando as suas convicções e esbarrando nos meus objetos. Decidi parar. Deixei a onda quebrar na minha cabeça, só pelo quebrar.
Não escreverei nenhum eu por aqui. Não escreverei mais. Qualquer definição ou marca de pertença será em vão. Não a tenho. Não as tenho. Sou como o mar sem direção, seguindo e atravessando com todo o seu ser, sem se ancorar em alguma coisa ou lugar. Sobre ele, pela manhã, ora o sol ou as nuvens, ora apenas a chuva. Pela noite, a lua, e por que não o temporal? Acidentalmente, o céu é você. Quanto mais claro, mais azul. Quanto mais escuro, mais estrelas. E tantas outras coisas. Sou seu e não o sou. Em uma distância impossível a todo o momento. Perto, embora tão longe. Nem com você nem sem você.
dezembro 11, 2021
junho 09, 2019
todo este esta respiração som voz olhar
é tudo junto tudo correndo risco de ser devorado
este corpo
em si fora de si
ele ela está ou não está balançando a cabeça abrindo e fechando a boca?
a voz nunca chega
grunhindo não grunhindo
não podendo fazer calar
sem entender
esta voz prestes
quem é ela quem é ele?
pergunto
ela ele?
pergunto
quando a voz tocar nesse corpo ele ela eles saberão o que fazer?
eles têm uma boca ela grita
deixa o som escapar a boca
ela mexe algo muda
que que a boca faz?
barulho de boca aberta
de língua pelos cantos
de vozes
o que dizem?
a boca não sabe se silencia.
E recomeça
cospe e mastiga
para acabar
de dizer
pouco a pouco
aos poucos
tomando o copo o corpo
para acabar
de vez
de vez