agosto 23, 2016

Desejo de ver o outro que se desaparece.



Ainda não sei falar sobre o outro que está pelas partes. O outro pulsa. Respira. Se dá a ver sensorialmente. Companhia que cerca por pequenos instantes. Pequenas latências.  Possui traços esfumaçados. Talvez o outro seja ressonância. Escuta. Movimentos por minúsculos que pareçam. Cheira estar e não estar como sensação daquilo que se passa através. Em infinitas direções. Transitando, desmanchando e recriando por movimentos ziguezagueantes. Imprevisíveis. Nascem das micros percepções. O outro cresce. Volta e vai. Confunde, entrelaça, interage. O outro é algo que conduz. De qualquer forma o outro não sou eu. 
Talvez o outro esteja escondido por detrás de alguma coisa. Bom se fosse verdade. Jamais uma forma única. O outro engana. Está fadado a desaparecer. Mas não é vazio. Escapa. Aparece desaparecendo. Desde o princípio desfazimento. Quem sabe o outro não seja aquilo que se apaga. Luz que desaparece. Fugição. Abandono. Mas quando surge irrompe novas percepções. É repentino. É piscadela. É também presença poética de estar. Talvez ele nem tenha tocado em mim. Mas há rastro que ele passou. Em todo o caso sem poder ser visto. Sendo fluidez. Impedimento. Equilíbrio precário de companhia. O outro é relacional. É brincadeira. É coisa rara. Redescoberta. Acaso. Diferença. Sem estabelecer o que é. Ah, quem dera ser possível denominar o outro.

agosto 26, 2015

Ela vem
Aparece sem explicar
Amanhece
Me faz sorrir
Vem
Ao longo do dia
Uma hora
Ou outra
Sabe
A boca ilícita
O sono acaba
Às vezes



tão bom que de tão bom tão bem




junho 25, 2015


Desfiz o hábito e lancei cartas para o ar.

abril 07, 2015


Peço desculpas por te escrever nesse papel manchado de café. E sobre o fraquejo da letra, peço desculpas também. Minha caneta não está nada boa. Mas, ainda assim, continuarei a escrever. Peço desculpas pelos longos silêncios de uma palavra para outra, mas eu não encontro as palavras. Ontem aconteceu uma coisa estranha, acho que não te contei sobre isso, mas se eu já tiver contado, peço desculpas. Sei que você perde o calor quando você escuta um caso já contado, e não gostaria que isso acontecesse com você. Peço desculpas, mas não devia ter escrito isso, peço que você pule esse pedaço para que eu não tenha que rasurar essa parte. Assim, o papel não resistiria. Já tem o café, a caneta falha, na qual, volta e meia, eu reforço algumas meias palavras. Mas não quero grifar nada. Peço desculpas, se isso parecer. Enfim, prosseguirei. Cada parte daqui fui eu mesmo que escrevi. Já rasguei algumas tentativas, e espero que esta não tenha o mesmo fim. Nisso tudo, meu único receio é que este papel não chegue a você, e que assim, você não receba tudo aquilo que está aqui dentro.

Do seu.

abril 04, 2015

orquídea

Começar assim, pediu partida para de novo ir. Já disse a ele, jeito chato, mas ele não escuta. Falei para rasgar tudo, e do mal gosto que é de se fechar em si mesmo. O pior é o cheiro de tédio que ele exala quando decide não vir, mas o problema é dele, o problema é dele, dele, ele gosta assim, começar assim, não adianta começar de outro jeito, jeito estúpido de se começar, ninguém começa assim, partir sem rumo, para ir e vir, chegar aqui para mais uma vez chegar, e sair. Já disse a ele do cheiro de estar e não estar, mas ele não escuta. Diz sem dizer, para pedir para ficar sem ficar, mas eu não ligo, eu não ligo, ligo para ele, mas ele não atende. Saiu para voltar e não voltou. Rasgou tudo por aqui. Pediu partida e se foi. Foi para voltar, para ir e vir, mas não chegou. Partiu para não mais partir. Rasgou letras, vírgulas e cifras, e se foi, e se foi, e foi, e até agora só foi. E foi quando um cheiro forte de orquídea invadiu a sala.

março 27, 2015


A minha realidade é o que eu escrevo. Não vou florir flores que não são minhas e nem vou me ficcionar, pois é a minha respiração que direciona os meus movimentos... Mas, às vezes, eu tenho a impressão que eu respiro tão mal, pois simplesmente voo longe ao me esquecer de soltar o ar. Quando isso acontece, me dá uma vontade tão grande de rir, mas me seguro por segurança... Mas, agora, eu solto todo o ar, pois continuo a voar, só que com asas para o mundo.

março 23, 2015


Me perdi. Ando deglutindo tão devagar cada segundo, que demorei mais de um tempo para abrir as janelas da sala, mas se você reparar bem, elas estão mais fechadas que abertas. Talvez seja para o vento não entrar, ou talvez para o silêncio de aqui de dentro não atrapalhar o barulho de lá de fora.

março 21, 2015

os pés

Desde muito cedo, descobri o rodopear dos pés ao me deitar na cama.
Era involuntário, mas preciso.
Sempre achei que seria um segredo só meu.
Porém, ao me deitar com outros, fiz com que este gesto tão particular fosse, aos poucos, tomando corpo nos corpos dos outros pés que me esbarravam sem perceber.
E assim, sem me propor nada, os seus pés namoravam os meus.

março 07, 2015

Cato as palavras e começo a escrever

Talvez seja uma forma torta de voar em gestos soltos




Sair de mim em transverso e jogar pro ar somente a leveza de ser




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