dezembro 11, 2021


o sol invade a sala pela manhã

pinta o rosto

aquece a alma

faz tudo tremer

 

amanhece

eu e você entrançados na cama

dormindo sorrindo (um para o outro)

enquanto as flores despertam

dentro de nós

 

acordo assim

de mãos dadas com o sol

acalentando os seus cabelos

todos os dias primavera

 

junho 09, 2019

...tudo outra vez 
todo este esta respiração som voz olhar 
é tudo junto tudo correndo risco de ser devorado 
este corpo
em si fora de si 
ele ela está ou não está balançando a cabeça abrindo e fechando a boca?
a voz nunca chega 
grunhindo não grunhindo 
não podendo fazer calar 
sem entender
esta voz prestes 
quem é ela quem é ele?
pergunto
ela ele?
pergunto 
quando a voz tocar nesse corpo ele ela eles saberão o que fazer?
eles têm uma boca ela grita
deixa o som escapar a boca 
ela mexe algo muda 
que que a boca faz?
barulho de boca aberta
de língua pelos cantos 
de vozes 
o que dizem?
a boca não sabe se silencia.

recomeça 
cospe e mastiga 
para acabar 
de dizer 
pouco a pouco 
aos poucos
tomando o copo o corpo 
para acabar 
de vez
de vez

janeiro 30, 2018

Não diz. Diz.

outubro 20, 2017

Tenho errado despropositalmente no café pela manhã.

agosto 23, 2016

Desejo de ver o outro que se desaparece.



Ainda não sei falar sobre o outro que está pelas partes. O outro pulsa. Respira. Se dá a ver sensorialmente. Companhia que cerca por pequenos instantes. Pequenas latências.  Possui traços esfumaçados. Talvez o outro seja ressonância. Escuta. Movimentos por minúsculos que pareçam. Cheira estar e não estar como sensação daquilo que se passa através. Em infinitas direções. Transitando, desmanchando e recriando por movimentos ziguezagueantes. Imprevisíveis. Nascem das micros percepções. O outro cresce. Volta e vai. Confunde, entrelaça, interage. O outro é algo que conduz. De qualquer forma o outro não sou eu. 
Talvez o outro esteja escondido por detrás de alguma coisa. Bom se fosse verdade. Jamais uma forma única. O outro engana. Está fadado a desaparecer. Mas não é vazio. Escapa. Aparece desaparecendo. Desde o princípio desfazimento. Quem sabe o outro não seja aquilo que se apaga. Luz que desaparece. Fugição. Abandono. Mas quando surge irrompe novas percepções. É repentino. É piscadela. É também presença poética de estar. Talvez ele nem tenha tocado em mim. Mas há rastro que ele passou. Em todo o caso sem poder ser visto. Sendo fluidez. Impedimento. Equilíbrio precário de companhia. O outro é relacional. É brincadeira. É coisa rara. Redescoberta. Acaso. Diferença. Sem estabelecer o que é. Ah, quem dera ser possível denominar o outro.

agosto 26, 2015

Ela vem
Aparece sem explicar
Amanhece
Me faz sorrir
Vem
Ao longo do dia
Uma hora
Ou outra
Sabe
A boca ilícita
O sono acaba
Às vezes



tão bom que de tão bom tão bem




junho 25, 2015


Desfez o hábito e lançou cartas para o mar.

abril 07, 2015


Peço desculpas por te escrever nesse papel manchado de café. E sobre o fraquejo da letra, peço desculpas também. Minha caneta não está nada boa. Mas, ainda assim, continuo a escrever. Peço desculpas pelos longos silêncios de uma palavra para outra, mas eu não encontro as palavras. Ontem aconteceu uma coisa estranha, acho que não te contei sobre isso, mas se eu já tiver te contado, peço desculpas. Sei que você perde o calor quando você escuta uma coisa já contada, e não gostaria que isso acontecesse com você. Peço desculpas, mas não devia ter escrito isso, peço que você pule esse pedaço para que eu não tenha que rasurar essa parte. Assim, o papel não resistiria. Já tem o café, a caneta falha, na qual, volta e meia, eu reforço algumas meias palavras. Mas não quero grifar nada. Peço desculpas, se isso parecer. Enfim, cada parte daqui fui eu mesmo que escrevi. Já fiz algumas tentativas. Espero que esta não tenha o mesmo fim. Nisso tudo, meu único receio é que este papel não chegue a você, e que, assim, você não receba tudo aquilo que está aqui dentro.

Do seu.

abril 04, 2015

orquídea

Começar assim, pediu partida para de novo ir. Já disse a ele, jeito chato, mas ele não escuta. Falei para rasgar tudo, e do mal gosto que é de se fechar em si mesmo. O pior é o cheiro de tédio que ele exala quando decide não vir, mas o problema é dele, o problema é dele, dele, ele gosta assim, começar assim, não adianta começar de outro jeito, jeito estúpido de se começar, ninguém começa assim, partir sem rumo, para ir e vir, chegar aqui para mais uma vez chegar, e sair. Já disse a ele do cheiro de estar e não estar, mas ele não escuta. Diz sem dizer, para pedir para ficar sem ficar, mas eu não ligo, eu não ligo, ligo para ele, mas ele não atende. Saiu para voltar e não voltou. Rasgou tudo por aqui. Pediu partida e se foi. Foi para voltar, para ir e vir, mas não chegou. Partiu para não mais partir. Rasgou letras, vírgulas e cifras, e se foi, e se foi, e foi, e até agora só foi. E foi quando um cheiro forte de orquídea invadiu a sala.