abril 29, 2013

TREMOR


Ele passa sem rosto com precisão
Homem sem contorno
Que desaparece pela casa
Ele – homem que passa
Não eu
Não ele

Não dorme, transita
Entra com a televisão nas mãos
Ligada pelos fios desenrolados pela casa
Nunca está presente
Nunca ele

Dá parabéns, cheques, peixes, vidro
Sobe a antena, desliga a máquina
Bate na lateral direita da televisão
Corta a orelha do filho
Não eu

Repassa pelo mesmo caminho sem perceber
Ele nunca chega, sempre indo
Tem que trocar a água, que sobe
Para dar de presente o mar para o filho. 

março 26, 2013

Ser aquilo que se apaga para existir.

Deixem 

água 

cair.

março 22, 2013

Com César

São esquecidas todas as palavras que ficaram presas na boca, que se resguardaram no silêncio, nas reflexões de quase tudo. 

Quase tudo é sempre o bastante pra desaguar qualquer lágrima, que em mim é quase um regato, de quase tudo. 

 O ar está cheio das muitas poucas coisas. Das poucas coisas que restou de ti, resta eu. Resta pouco de mim. 

Não muito mais, ouvia a sua voz presa a minha nuca. Mas agora ela se cala, dentro da minha boca.

 Eu fecho você. E o mar se esvai de olhos fechados e se fecha no fim. Pra sempre prestes a terminar.

 No não impulso, sem pulso, eu pulso nas palavras engolidas. Na espreita da tua chegada e na espera da sua partida.

outubro 27, 2012

Música



ele não quer mais, aqui. 
ele não quer mais tocar aqui.
ele não perto de nós,
perto de nós,
ficar aqui,
dentro de nós,
ele não quer mais, bem aqui.
ele não mais tocar.
ele, perto de nós.
tocar aqui, dentro de nós,
cansar aqui, 
perto de nós, ficar.

setembro 18, 2012

Para afundar


Esse barulho vem do apartamento de cima.
É barulho de água se movimentando.
Nunca parada. Sempre pingo.
Pingo de água presa à tubulação.
Água que vaza do apartamento de cima.
Às vezes mais forte. Vezquando mais fino.
Mas sempre.


Desta água que aperta.
Pelos canos. Jorram.
Livres. Leves. Envolta.
Por toda casa. Das casas.
Água que passa.
Pelos copos. Corpos.
Mil copos.
E bebem. Para afundar.

dezembro 15, 2011

Querida Virgínia,

Sepulto as tentativas do amor. Sepulto à ti, a mim, a nós. Peço desculpas por não ter comparecido ao nosso casamento, mas era inevitável. E desde já, digo que não quero mais ver seus passos vindos em minha direção. Peço que não me escreva mais, principalmente sobre o amor. Eu não amo você e não vou te amar. Eu começo a fechar você da minha vida. Eu me sinto sufocado com uma dor grande na garganta.
Seja alegre e logo você encontra outro. Logo estará amando outro. O tempo enreda-se aos poucos disso. Por isso peço distância. E se for muito difícil, peço que não venha mais.

Leonardo

julho 07, 2011

Peço

Antes que aquilo tudo termine ponto de dizer mesmo com essas tortas palavras daquilo que se abre ponto abrindo de repente virgula abrindo para sempre virgula abrindo tudo virgula tudo se abre ponto tudo se abre ponto

maio 13, 2011

g o t a

d i z i a s e r e u , m a s e l e - i n g r a t o e s g o t o - t ã o p o u c o s a b i a d a q u i l o


q u e s e e s g o t a


,


p i n g a


n d o p


e l o


c a m


i n


h


o


.

janeiro 16, 2011

eu fecho o teu

não mais agora
não neste instante
silêncio abismo de não ter sido
fechando a cada passo
abrindo-se para se fechar cada vez mais
eu fecho o teu

fecharia os ouvidos
até se acabar de vez
não mais
não muito mais

e o mar começa a lacrimejar
e os olhos a se perder e a se fechar
e se esvai de olhos fechados por um instante e se fecha no fim
eu fecho o teu por já me ter fechado